Monday, February 11, 2008

Visual Effects Society


Numa festa realizada no Kodak Grand Ballroon, em Hollywood (Los Angeles, EUA), a Visual Effects Society - instituição que premia os destaques em relação a efeitos especiais - anunciou os vencedores deste ano.

O longa-metragem Transformers foi o principal vencedor do prêmio, considerado o Oscar dos efeitos especiais por ser o principal na área. O blockbuster dirigido por Michael Bay levou quatro estatuetas: Melhores Efeitos Visuais num Filme Baseado nos Efeitos, Melhor Efeito Visual pela cena no deserto, Melhor Desenvolvimento de Modelos ou Bonecos e Melhor Composição de Efeitos - todos relacionados a um trabalho em longa-metragem.

O brasileiro Péricles Michielin recebeu duas indicações, nas categorias Destaque de Personagem de Animação (ao lado de Keith Smith, Scott Holmes e Kenn McDonald) e Destaque de Efeitos em Filmes de Animação (com Theo Vandernoot, Vincent Serritella e Rob Engle), pelo filme A Lenda de Beowulf, de Robert Zemeckis, mas não foi vencedor em nenhuma delas.

A Visual Effects Society conta com 1.600 associados, artistas, técnicos em artes e efeitos visuais. A entidade é representada em 17 países, inclusive no Brasil. Os profissionais concorrem anualmente a prêmios em 12 categorias em cinema, televisão, publicidade e videogames. Confira os longas-metragens premiados:

- Melhores Efeitos Visuais Num Filme Baseado nos Efeitos: Transformers
- Melhores Efeitos Visuais Secundários: Ratatouille
- Melhor Efeito Visual em uma Cena: Seqüência no deserto em Transfoermers
- Melhor Personagem Animado num Filme em live action: Piratas do Caribe - No Fim do Mundo (Davy Jones)
- Melhor Personagem de Animação: Ratatouille (Colette)
- Destaques Visuais Numa Animação: Ratatouille (comida)
- Melhor Ambiente Criado para um Filme em Live Action: O redemoinho em Piratas do Caribe - No Fim do Mundo
- Melhor Desenvolvimento de Modelos ou Bonecos: Transformers
- Melhor Composição de Efeitos: Transformers
- Melhores Efeitos Especiais: Harry Potter e a Ordem da Fênix

Os indicados ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais são:

"A Bússola de Ouro"
"Piratas do Caribe: No Fim do Mundo"
"Transformers"

WRITERS GUILD OF AMERICA (II)

O Writers Guild of America (WGA), Sindicato dos Roteiristas norte-americanos, anunciou os vencedores de sua premiação anual.

ROTEIRO ORIGINAL
Diablo Cody, Juno

ROTEIRO ADAPTADO
Ethan e Joel Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez

ROTEIRO DOCUMENTÁRIO
Alex Gibney, Taxi to the Dark Side

A história de um jovem taxista no Afeganistão é empregada como pano de fundo para discutir as crueis táticas empregadas pelo exército norte-americano em suas mais recentes guerras, num desrespeito flagrante ao determinado pela Convenção de Genebra.
O filme concorrerá ao Oscar de Melhor Documentário em Longa-Metragem.

Sunday, February 10, 2008

BAFTA AWARDS


Melhor Filme - Desejo e Reparação
Melhor Filme Britânico - This is England
Melhor Ator - Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Melhor Atriz - Marion Cotillard (Piaf- Um Hino ao Amor)
Melhor Ator Coadjuvante - Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)
Melhor Atriz Coadjuvante - Tilda Swinton (Conduta de Risco)
Melhor Direção: Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez)
Melhor Roteiro Original - Juno
Melhor Roteiro Adaptado - O Escafandro e a Borboleta
Melhor Fotografia - Onde os Fracos Não Têm Vez
Melhor Montagem - O Ultimato Bourne
Melhor Direção de Arte - Desejo e Reparação
Melhor Figurino - Piaf- Um Hino ao Amor
Melhor Trilha Sonora - Piaf- Um Hino ao Amor
Melhor Maquiagem - Piaf- Um Hino ao Amor
Melhor Som - O Ultimato Bourne
Melhores Efeitos Visuais - A Bússola de Ouro
Melhor Filme Falado em Língua não Inglesa - A Vida dos Outros
Melhor Animação - Ratatouille
Melhor Revelação - Shia La Beouf
Melhor Revelação Técnica - Matt Greenhalgh (roteirista)
Melhor Curta de Animação - The Pearce Sisters
Melhor Curta - Dog Altogether

Friday, February 08, 2008

FOTO DOS INDICADOS

Como é costume da Academia, um grande encontro entre os indicados em todas as categorias foi promovido para que estes recebessem diplomas reconhecendo a distinção e tirassem a tradicional foto da "turma"

Alguns recortes curiosos (você pode clicar na foto para ampliá-la):

Julian Schnabel, indicado como diretor por O Escafandro e a Borboleta confraternizando com Javier Bardem, indicado como Melhor Ator Coadjuvante por Onde os Fracos Não Tem Vez. Os dois trabalharam juntos em Antes do Anoitecer, quando Bardem interpretou o poeta cubano Reinaldo Arenas.




Michael Moore confiante no Oscar de Melhor Documentário por $O$ Saúde.




George Clooney e Viggo Mortensen concorrem pelo Oscar de Melhor Ator e pelo posto de mais famoso da foto.

Conflito de gerações: os indicados ao Oscar Hal Holbrook (Ator Coadjuvante, Na Natureza Selvagem), Ellen Page (Atriz, Juno), Casey Affleck (Ator Coadjuvante, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) e Julie Christie (Atriz, Longe Dela).

Ethan e Joel Coen, os irmãos diretores de Onde os Fracos Não Têm Vez, o favorito para o Oscar de Melhor Filme.

Ruby Dee (O Gangster) e Amy Ryan (Medo da Verdade) são concorrentes na categoria Melhor Atriz Coadjuvante.

Sarah Polley foi indicada na categoria Melhor Roteiro Adaptado por Longe Dela e Marion Cotillard na categoria Melhor Atriz por Piaf-Um Hino ao Amor.

Laura Linney, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por The Savages.

A iraniana Marjane Satrapi e o francês Vincent Paronnaud são os diretores e artistas gráficos de Persépolis, que concorre na categoria Melhor Longa Metragem de Animação.

Roger Deakins concorrerá contra ele mesmo. Ele foi indicado na categoria Melhor Fotografia por dois trabalhos: Onde os Fracos Não Têm Vez e O Assassinato de Jesse James Pelo covarde Robert Ford.

Monday, February 04, 2008

PRODUCERS GUILD OF AMERICA AWARDS

O prêmio do Sindicato dos Produtores é recente - começou a ser dado em 1990, com Conduzindo Miss Daisy. Algumas vezes coincidiu com o Oscar, mas desde 2005 esta coincidência não tem acontecido na categoria principal - Melhor Filme:
Em 2005 o PGA escolheu O Aviador, a Academia escolheu Menina de Ouro; em 2006, o PGA escolheu O Segredo de Brokeback Mountain, e Academia preferiu Crash- No Limite; em 2007, o PGA escolheu Pequena Miss Sunshine, a Academia, Os Infiltrados. Em 2008, o PGA escolheu Onde os Fracos Não Têm Vez, e a Academia, vai escolher o quê?

Categoria: Produtor do Ano em Filmes de Animação

Vencedor:
"Ratatouille" (Walt Disney Pictures/Pixar Animation)
outros finalistas:
"Bee Movie" (Dreamworks Animation)
"The Simpsons Movie" (20th Century FOX)

Categoria: Produtor do Ano em Documentário

Vencedor:
"Sicko" (The Weinstein Company)
outros finalistas:
"Body Of War" (Phil Donahue Productions/Mobilus Media)
"Hear And Now" (HBO)
"Pete Seeger: The Power Of Song" (The Weinstein Company)
"White Light/Black Rain: The Destruction Of Hiroshima And Nagasaki" (HBO)

Categoria: Produtor do Ano em Filme para Cinema

Vencedor:
"No Country for Old Men" (Miramax/Paramount Vantage)
outros finalistas:
"The Diving Bell and the Butterfly" (Miramax)
"Juno" (Fox Searchlight)
"Michael Clayton" (Warner Bros.)
"There Will Be Blood" (Paramount Vantage/Miramax)

Sunday, February 03, 2008

OSCAR 2008 - MELHOR MAQUIAGEM (II)





















Marion Cotillard, indicada ao Oscar de melhor Atriz, se "transforma" em Edith Piaf em um dos trabalhos indicados ao Oscar de Melhor Maquiagem deste ano. Na terceira foto, a Piaf verdadeira.

Os vencedores do Oscar de MELHOR MAQUIAGEM dos últimos anos foram: David Marti e Montse Ribe (O Labirinto do Fauno, 2007); Howard Berger e Tami Lane (As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, 2006); Valli O’Reilly e Bill Corso (Desventuras em Série, 2005); Richard Taylor e Peter King (O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei, 2004); John Jackson e Beatrice De Alba (Frida, 2003); Peter Owen e Richard Taylor (O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, 2002); Rick Baker e Gail Ryan (O Grinch, 2001) e Christine Blundell e Trefor Proud (Topsy-Turvy, 2000).

Os finalistas ao prêmio em 2008 são:

Didier Lavergne e Jan Archibald, por Piaf - Um Hino ao Amor

Rick Baker e Kazuhiro Tsuji, por Norbit

Ve Neill e Martin Samuel, por Piratas do Caribe: No Fim do Mundo

O filme Norbit, de Brian Robbins, recebeu 8 indicações ao Framboesa de Ouro, o prêmio dado aos piores filmes do ano. Mas o trabalho de maquiagem conseguiu uma indicação ao Oscar transfromando Eddie Murphy em Sr. Wong, Norbit e Rasputia.

Rick Baker é uma referência nesta categoria. Já recebeu seis vezes a estatueta, por Um Lobisomem Americano em Londres (1982), Um Hóspede do Barulho (1988), Ed Wood (1995), O Professor Aloprado (1997), MIB-Homens de Preto (1998) e O Grinch (2001), além de ter sido indicado por Greystoke: A Lenda de Tarzan (1985), Um Príncipe em Nova York (1989) e Até Que a Vida Os Separe (2000) na categoria Melhor Maquiagem e por Poderoso Joe (1999) na categoria Melhores Efeitos Visuais. Kazuhiro Tsuji foi indicado ao Oscar por Click (2007).

Ve Neill também tem sua história nas premiações. Já recebeu três vezes a estatueta, por Os Fantasmas se Divertem (1989), Uma Babá Quase Perfeita (1994) e Ed Wood (1995, em parceria com Rick Baker), além de ter sido indicado por Edward Mãos de Tesoura (1991), Batman-o Retorno (1993) , Hoffa (também em 1993) e Piratas do Caribe: a Maldição do Pérola Negra (2004, em parceria com Martin Samuel).

No trabalho dos maquiadores de Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, a transformação de Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones, no pai de Jack Sparrow e a caracterização dos Nove Lordes dos Mares e dos tripulantes do Holandês Voador do Capitão Davy Jones são alguns dos destaques.

Saturday, February 02, 2008

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

(No Country for Old Men, EUA, 2007)

Direção: Ethan Coen, Joel Coen

Roteiro de Joel Coen, Ethan Coen e Cormac McCarthy. Elenco: Woody Harrelson (Carson Wells), Tommy Lee Jones (Ed Tom Bell), Javier Bardem (Anton Chigurh), Stephen Root, Josh Brolin (Llewelyn Moss), Garret Dillahunt (Wendell) , Tess Harper (Loretta Bell), Kelly Macdonald (Carla Jean Moss)


Sinopse: Após enforcar um policial na delegacia em que estava preso, Anton Chigurh rouba uma viatura da polícia e segue rumo a uma cidadezinha no deserto do Novo México onde tem um encontro marcado com uns chefões do tráfico de drogas.

Soldador aposentado e veterano da Guerra do Vietnã, o texano Llewelyn Moss passava seu tempo caçando animais silvestres no deserto do Novo México quando avistou, com seu binóculo, um cão ferido e um rastro de sangue que o deixou intrigado. Ao seguir o rastro Moss avistou uma cena chocante numa planície adiante: cinco caminhonetes abandonadas no deserto rodeadas por vários cadáveres humanos sendo consumidos por insetos. Havia um sobrevivente dentro de uma das caminhonetes, um mexicano assustado que pediu água para Moss. As evidências levaram Moss a acreditar que naquele local ocorrera uma negociação de traficantes de drogas que terminou mal, mas ele desconfiava que mais alguém devia ter saído do local vivo.

Foi então que Moss avistou com seu binóculo um corpo sob a sombra de uma árvore alguns metros adiante. Moss esperou algum tempo para saber se o tal corpo era de alguém vivo ou de mais um cadáver e como o corpo não se mexeu, resolveu aproximar-se. Era mais um cadáver. Ao lado do corpo sob a árvore Moss encontrou uma maleta e dentro dela vários maços de notas de cem dólares em pacotes de US$ 10.000,00 cada. Uma fortuna.

Llewelyn Moss foi para casa com a maleta cheia de dólares, mas não contou nada do que aconteceu para sua esposa Carla Jean. De madrugada, porém, Moss levantou-se e resolveu voltar para a planície "ensanguentada" com o objetivo de levar água para o mexicano amedrontado.

Porém, ao chegar ao local, Moss é descoberto pelos traficantes que passam a persegui-lo e colocam ninguém menos que Anton Chigurh para recuperar a maleta de dólares. Moss passaria a viver como fugitivo, passando de um hotel para outro, e tentaria dar alguma segurança para sua esposa, que também passou a correr riscos. O que ninguém sabe é que Anton é um psicopata muito mais louco do que se podia imaginar, andando sempre com sua arma de ar comprimido, um silenciador de disparos e movido por "princípios" assustadores.


Bastidores: Indicado aos Oscars 2008 nas categorias Melhor Filme, Melhor Direção (Ethan e Joel Coen), Melhor Ator Coadjuvante (Javier Bardem), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Edição de Som.

OPINIÃO DO CRÍTICO: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (II)

PABLO VILLAÇA, do site Cinema em Cena:

"Quando escrevi sobre este filme, em novembro do ano passado, comentei que a maior parte do público sairia do cinema com um grande sentimento de frustração em função do desfecho apresentado pelo escritor Cormac McCarthy em seu livro e preservado fielmente pelos irmãos Coen em sua fabulosa adaptação de Onde os Fracos Não Têm Vez. Pois mantenho a previsão, embora lamente fazê-lo, já que, embora os cineastas neguem ao espectador uma conclusão amarradinha e dramaticamente catártica, o fato é que esta é tematicamente perfeita e enriquece o filme ainda mais, transformando-o no melhor trabalho de uma dupla que, em 23 anos de carreira e apenas 12 longas, já criou maravilhas como Gosto de Sangue, Arizona Nunca Mais, Ajuste Final, Barton Fink, Na Roda da Fortuna, Fargo e O Homem que Não Estava Lá.

Ambientado no Texas, em 1980, o roteiro acompanha o veterano do Vietnã Llewelyn Moss (Brolin), que, certa noite, encontra uma maleta com 2 milhões de dólares depois de se deparar com um massacre ocorrido no meio do deserto. Decidido a ficar com o dinheiro, ele passa a ser perseguido por bandidos mexicanos e – ainda pior – por um matador particularmente cruel que atende pelo estranho nome de Anton Chigurh (Bardem). Enquanto isso, o xerife Ed Tom Bell (Jones) tenta encontrar Llwelyn antes que este seja morto por Chigurh e, neste processo, se mostra cada vez mais impressionado com a matança promovida pelo sujeito.

Como na maioria dos projetos dos Coen, a trama de Onde os Fracos Não Têm Vez tem relativamente pouca importância quando comparada ao prazer que os cineastas sentem em desenvolver seus personagens – e, neste sentido, os diálogos criados por McCarthy em seu livro e transferidos para o roteiro com imenso respeito pelos irmãos são incrivelmente similares àqueles que os próprios diretores costumam criar em seus trabalhos originais (o que talvez explique por que decidiram, pela primeira vez, adaptar a obra de outra pessoa). Enriquecido pela cadência do sotaque texano, os diálogos ditos por figuras com nomes como Carla Jean e Ed Tom (que, por si só, já dizem muito sobre seus donos) são escritos com um cuidado que não faz distinção entre protagonistas e quase figurantes: quando Llewelyn pergunta o preço de um quarto para uma velha recepcionista de hotel, por exemplo, ela oferece uma resposta que diverte pela construção: “Cada um tem um preço aplicável” – e, mais tarde, quando alguém indaga o que o personagem de Brolin fez com o dinheiro, este responde com uma das melhores tiradas já filmadas pelos Coen: “Gastei 1,5 milhão em prostitutas e uísque. O resto, eu desperdicei”.

Com isso, Onde os Fracos Não Têm Vez apresenta-se como um destes raros exemplares da Hollywood moderna que são mais do que um espetáculo visual: eu poderia apenas escutar o filme centenas de vezes com o mais absoluto prazer. Considerem, por exemplo, a arquitetura quase poética de uma troca de diálogos entre Chigurh e Carson Wells, vivido por Woody Harrelson, em uma das melhores cenas do longa, quando, depois de ouvir Chigurh filosofar ironicamente sobre sua trajetória até ali, Carson comenta:

- Você tem idéia do quanto é louco?

- Você se refere à natureza desta conversa?

- Eu me refiro à natureza de sua pessoa.

E se você teme que eu tenha revelado diálogos demais do longa, pode acalmar-se: eu poderia empregar páginas e mais páginas apenas para comentar falas específicas do filme, tamanha a quantidade de trocas memoráveis como estas ali presentes. Porém, esta obra-prima (e usei esta expressão apenas duas vezes ao comentar cerca de 60 filmes da Mostra de São Paulo: a outra foi com relação a 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) impressiona também por sua riqueza narrativa: mistura de western e filme noir, este talvez seja um dos trabalhos mais disciplinados dos Coen, que substituem seus costumeiros invencionismos visuais por uma lógica firme, apresentando aquele mundo como uma versão contemporânea (ou quase) de um “Velho Oeste” com códigos morais ainda mais degradados pelo tempo.

Neste sentido, o personagem de Bardem surge não apenas como um vilão assustador, mas como um símbolo do mundo-cão em que vivemos – e não seria errado considerá-lo como uma metáfora do verdadeiro Mal que nos surpreende em tragédias como a do garotinho arrastado e morto por assaltantes de carro, em São Paulo; a do casal de jovens barbaramente executado no litoral do Rio; ou a dos pais que tiveram sua morte planejada pela própria filha, há alguns anos. Numa Sociedade que chega ao ponto de encarar um psicopata como o Capitão Nascimento como herói, há muito que o sentimento de segurança deixou de existir: sabemos que, de um momento para o outro, um moleque armado com uma automática ou um playboy desesperado por crack podem pôr fim à vida de seus parentes ou de completos estranhos – e, neste aspecto, é impossível deixar de reconhecer o brilhantismo simbólico da cena em que Chigurh obriga um humilde atendente de posto de gasolina (o desconhecido Gene Jones, numa participação digna de prêmios) a disputar um tenso Cara ou Coroa que, ambos sabem, pode significar o fim da vida do sujeito.

Javier Bardem, aliás, oferece um desempenho nada menos do que perfeito como o apavorante Chigurh: utilizando um corte de cabelo que torna o personagem ainda mais inquietante, ele cria um monstro cuja natureza metafórica já é ressaltada por sua primeira cena, quando os Coen o apresentam com o rosto oculto, nas sombras, enquanto a narração de Tommy Lee Jones discute a crueldade incompreensível de certos indivíduos. Assim, quando finalmente podemos ver a face do vilão, ele surge já em ação e exibindo um olhar absolutamente insano, quase em transe, enquanto faz mais uma vítima. Porém, ator sempre inteligente, Bardem foge do histrionismo ao empregar uma voz sempre calma e controlada mesmo nas cenas em que Chigurh se mostra claramente irritado – e isto, aliás, reflete a natureza metódica do personagem, que, antes de agir, chega a preparar-se cuidadosamente ao ensaiar o tempo que levará para abrir uma porta e acender a luz ou ao estudar possíveis esconderijos que seus oponentes poderão utilizar num quarto de hotel. Enxergando suas vítimas como animais (não é à toa que ele emprega uma arma utilizada para abater gado), o matador ganha contornos quase míticos ao longo da projeção – e, em determinado instante, os Coen criam um quadro que coloca o espectador estrategicamente ao lado de um dos alvos de Chigurh, como se também estivéssemos sob sua mira, vulneráveis.

E se Bardem é, aqui, o Mal Encarnado, Tommy Lee Jones surge soberbo como a Voz da Razão, encarnando a frustração que todos sentimos diante da brutalidade crescente que faz do planeta um lugar que justifica tragicamente o título do filme (e pior: “fracos” são todos aqueles que recusam a desumanização, que mantêm seus princípios). Tentando enxergar o mundo de maneira filosoficamente pessimista, o xerife Ed Tom Bell sabe que jamais conseguirá acompanhar o ritmo com que a Sociedade vem se decompondo e, assim, seu cansaço torna-se cada vez mais crescente à medida que percebe estar no meio de uma batalha já perdida. E se os fracos são aqueles que buscam manter a própria integridade, como mencionei há pouco, o Llewelyn do ótimo Josh Brolin é a representação perfeita disso, já que é um gesto de humanidade (que ele reconhecer ser também algo estúpido de se fazer) que praticamente o condena a ser perseguido por Chigurh.

Filmado pelo brilhante Roger Deakins com uma paleta que realça a secura daquele (e do nosso) mundo, Onde os Fracos Não Têm Vez conta ainda com um design de som absolutamente primoroso: negando-se a empregar uma trilha sonora convencional, o filme extrai tensão dos sons diegéticos (aqueles originados em seu próprio universo), como o ranger do assoalho, o raspar metálico de uma maleta de couro num duto de aço ou o eco de um telefone que toca à distância enquanto, à nossa frente, o autor do telefonema ouve o sinal da chamada jamais atendida. Da mesma maneira, a montagem precisa de Roderick Jaynes (leia-se: Joel e Ethan Coen) constrói seqüências de ação angustiantes, como aquela que começa quando presa e caçador parecem se avaliar silenciosa e cegamente através da porta de um quarto de hotel – e mesmo a inclusão de um plano-detalhe de uma embalagem se abrindo lentamente num balcão pode ressaltar o tom ameaçador de uma cena. Além disso, os cineastas, como de hábito, extraem humor de momentos atípicos como a perseguição no rio envolvendo um cachorro (e Brolin, pela segunda vez em 2007, não poupa o animal) ou o protesto da sogra de Llewelyn quando este afirma que tudo ficará bem: “Ficará bem? Eu tenho o câncer!”.

Pessimista como o próprio xerife Ed Tom Bell, Onde os Fracos Não Têm Vez expõe com tristeza o terror crescente de nosso cotidiano, que pode trazer a dor num cruzamento claramente sinalizado, no virar de uma esquina (reparem como os tiros, na seqüência do tiroteio noturno, parecem vir do nada, da escuridão, inesperados e fatais) ou num arremesso de moeda. E se por um breve instante sonharmos com um futuro de segurança, com uma luz reconfortante e quente na noite escura e fria, esta esperança se mostrará frágil a ponto de ser destruída por três curtas palavras:

“E aí acordei”.

Thursday, January 31, 2008

OPINIÃO DO CRÍTICO: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

MARCELO HESSEL, do site Omelete:

"Saiu do clássico O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford, a frase que define o Velho Oeste: "Entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda". Não importa se o personagem de James Stewart matou ou não matou Liberty Valance de verdade - enquanto houver alguém para contar a história, o mito do tiro certeiro viverá. Da mesma forma, quando um pistoleiro entra num saloon, é a imagem que fazem dele, e não sua eventual rapidez no gatilho, que vale mais.

Llewelyn Moss (Josh Brolin, foto à esquerda) tem contra si um Liberty Valance em Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Men): Anton Chigurh, o matador interpretado pelo espanhol Javier Bardem no faroeste que devolve a dignidade ao cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen. Os tempos são outros, a fronteira empoeirada com o México mudou, mas as lendas permanecem. Ao mesmo tempo em que desconstrói o herói do western, Onde os Fracos não Têm Vez constrói em Anton Chigurh um mito.

O filme abre com a prisão do matador. Entre seus pertences, um cilindro de ar comprimido, que não demora para entendermos como funciona, e para quê. Paralelamente, acompanhamos Llewelyn no descampado texano, caçando cervos. O fato de Llewelyn errar o tiro e não conseguir abater o animal ao mesmo tempo em que Chigurh vara o cérebro de sua vítima sem deixar provas é o primeiro dado que o filme nos dá para evidenciar o abismo que separa os dois personagens. Temos o assassino perfeito versus o errante sujeito sem dons, e o suspense começa quando o primeiro passa a perseguir o segundo.

Há um MacGuffin aí no meio, uma mala com 2 milhões de dólares, mas, como todo MacGuffin, ela vale tudo para os personagens e não significa absolutamente nada para o espectador. O que vale para nós é o embate de Chigurh com Llewelyn, o homem-mito contra o homem-real.

O xerife interpretado por Tommy Lee Jones entra aí como mediador. A ele cabe não apenas hiperbolizar a lenda de Chigurh como manter no chão o mundano Llewelyn. A questão da oralidade é fundamental na construção das lendas de faroeste, e Onde os Fracos não Têm Vez respeita essa lógica - no mais, a oralidade, frequentemente expressa na figura de um narrador, é ponto importante na filmografia dos Coen. Nas cenas na delegacia e no café, o xerife e seu subalterno trocam histórias tão sangrentas e bizarras quanto essa que estamos acompanhando na tela - o que é uma forma de mitificá-la ainda mais.

Que o clímax do filme nos seja apresentado em uma elipse anti-climática (o desfecho do embate visto pelos olhos do xerife) é o ponto máximo da construção da lenda. Para a posteridade ficará somente a versão das testemunhas, como em O Homem que Matou o Facínora.

No mais, há por trás do jogo de versões e perspectivas todo um contexto de época. O filme é uma adaptação do romance homônimo de 2005 do norte-americano Cormac McCarthy, que ambienta a história no Texas de 1980. Não é, vale repetir, o mesmo Velho Oeste dos colonizadores. James Stewart representava em 1962 a vitória do civilizador sobre o selvagem - o tema da superação do homem sobre o ambiente, enfim, que percorre todo o faroeste em seu período clássico. Já Onde os Fracos não Têm Vez é a desconstrução niilista do herói mítico porque hoje a civilização perdeu, os heróis perderam, o ambiente venceu.

Boa sorte a Llewelyn Moss contra o seu Liberty Valance."

Notas do editor sobre a Opinião do Crítico:

1) O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962), de John Ford, é um faroeste que se inicia com a visita do senador Ranson Stoddard (James Stewart), a Shinbone, no Velho Oeste, para o funeral de Tom Doniphon (John Wayne), um vaqueiro do qual era muito amigo. Entrevistado por um repórter, Stoddard conta a história (em flashback) de como sua fama de justiceiro se iniciou, anos atrás. Em flashback, acompanhamos a chegada do então advogado recém-formado Stoddard a uma pequena cidade do “Velho Oeste”. Sua carruagem é assaltada e ele é espancado. Stoddard jura então colocar seu algoz, o líder dos ladrões, Liberty Valance, (Lee Marvin), atrás das grades, atitude impensável na “terra sem lei”. Sua cruzada pela justiça o leva até a pequena cidade de Shinbone, onde conhece o cowboy "ao estilo clássico" Tom Doniphon (JohnWayne) e a garçonete Hallie (Vera Miles), por quem se interessa. No duelo final entre Stoddard e Valance, na verdade quem acerta o tiro que mata o bandido é Doniphon, escondido atrás de uma casa. O tiro dado pelo advogado, que não tinha nenhuma prática neste assunto, errou o alvo. Mas foi ele quem levou toda a fama e se elegeu senador. Doniphon, por sua vez, caiu na obscuridade e perdeu para Stoddard o coração de Hallie, por quem também era apaixonado. Ao saber que a carreira política de Stoddard começou com uma farsa, o repórter menciona a célebre frase “when the legend becomes fact, print the legend”.

2) MacGuffin é um termo popularizado por Alfred Hitchcock que serve para denominar de um modo geral objetos ou situações criadas no enredo de um filme para prender a atenção do espectador e motivar a situação principal, mas que na realidade são irrelevantes para o conjunto da história. O MacGuffin em geral é de suma importância para os personagens, os colocam no centro da trama principal e depois passam para um plano secundário até perder completamente a importância para o espectador.
Maletas cheias de dinheiro são MacGuffins bastante utilizados. Elas são cobiçadas e disputadas mas normalmente o que interessa ao diretor é transportar as personagens para o cenário da trama principal, como aconteceu em Psicose, por exemplo.

Monday, January 28, 2008

RATATOUILLE


(EUA, 2007)
Animação
Direção: Brad Bird e Jan Pinkava
Roteiro de Brad Bird, baseado em estória de Brad Bird, Jim Capobianco e Jan Pinkawa. Música: Michael Giacchino. Vozes na Versão Original de Patton Oswalt (Remy), Janeane Garafalo (Colette), Brad Garrett (Auguste Gusteau), John Ratzenberger (Mustafa), Ian Holm (Skinner), Lou Romano (Linguini), Brian Dennehy (Django), Peter Sohn (Emile), Peter O´Toole (Anton Ego).


Sinopse:
Em Paris, com vista privilegiada para a torre Eiffel, está localizado o Gusteau´s, um dos mais refinados e sofisticados restaurantes do mundo, conhecido pelas receitas e técnicas divulgadas pelo Chef Auguste Gusteau, que além de comandar com criatividade os "bastidores" de seu restaurante também apresenta um popular programa de TV no canal de culinária e é o autor do livro "Tout Le Monde Peut Cuisinere" (Qualquer Um Pode Cozinhar).

Subindo o rio Sena e seus afluentes alguns quilômetros acima chegamos a um pacato vilarejo do interior da França, onde fica o casebre de uma velhinha solitária e aparentemente inofensiva.

É no forro do teto do casebre da velhinha que moram Remy, sua família e toda uma numerosa colônia de ratos do campo, reviradores de lixo.

Remy tem um dom especial: seu paladar e olfato são altamente apurados. Remy é fã de Auguste Gusteau e não perde seu programa de TV no aparelho da velhinha que tira um cochilo sentada no sofá todas as tardes na hora das receitas. Já o pai de Remy resolve aproveitar o talento de Remy por uma "causa nobre", transformando o filho no Detector de Venenos da Colônia. Todo alimento encontrado, antes de ser ingerido, deve antes ser aprovado por Remy.

Pela TV, Remy fica sabando do falecimento de Auguste Gusteau, que morreu de desgosto após receber uma crítica tão negativa do temido crítico gastronômico Anton Ego que rebaixou seu restaurante a um "4 Estrelas".

Certo dia, ao procurar açafrão para temperar seu churrasco de cogumelo feito no pára-raio Remy e seu irmão Emile acabam despertando a velhinha inofensiva de seu sono profundo e ela mostra-se não tão inofensiva assim, disparando tiros de espingarda para todo lado quando descobre a colônia de ratos que havia em sua casa.

Desabrigados, os ratos fogem entrando nos subterrâneos da França e acabam chegando em Paris. Remy, que se perde do restante da colônia, chega aos esgotos do restaurante Gusteau´s, agora sob o comando do Chef Skinner.

Remy terá a oportunidade de sua vida quando tentará ajudar Linguini, um desajeitado funcionário novato do restaurante a aprender os segredos da alta cozinha francesa.

Data de estréia: 06/07/2007.

Bastidores: Indicado ao Oscar 2008 nas categorias Melhor Filme de Animação, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.


Opiniões dos Críticos:

TATIANA MONASSA, do site Contracampo:

"Remy é um rato desajustado com sua condição, um ser que não se contenta com o que o cerca e precisa buscar o novo, criar, ir além. Seu dom do olfato e paladar apurados torna-o um amante da culinária e um cozinheiro em potencial -aprisionado “socialmente” na posição de um animal anti-higiênico, repulsivo e condenado à margem (aos meio-fios, esgotos e cantos putrefatos). Impulsionado pelo lema do chef Gusteau (“Qualquer um pode cozinhar”), ele toma coragem para adentrar o mundo dos humanos e ter acesso ao que seria “por natureza” proibido para ele.
Oposta à de Anton Ego, o crítico culinário elitista, severo e orgulhoso, a figura de Gusteau se encontra dividida entre o oportunista que busca o lucro fácil e o gênio de bom coração, encorajador de novos talentos. No presente da narrativa, no entanto, ela existe apenas como a do conselheiro espiritual (para reafirmar sempre que qualquer um pode ser o quiser), fruto da imaginação de Remy. Pois é a ingenuidade do desejo não-maculado do obstinado ratinho que impulsiona o filme.

Partindo do princípio da fábula, de conferir humanidade aos animais para encenar uma moral, Ratatouille centra-se numa constatação primeira: os animais e os humanos coexistem (nem sempre pacificamente) em suas diferenças radicais. Este mundo, no qual a harmonia e a igualdade não são valores fundadores e as nuances imperam, é habitado por personagens cuja “função” na narrativa é graciosamente sublimada por suas personalidades. E, para além de um tradicional antagonismo (ou companheirismo, na moeda oposta), as relações entre eles são movidas por sonhos, ambições e interesses, que delineiam seu perfil psicológico e motivam suas ações. Desta forma, não existem “derrotas” e “vitórias” claras, mas mudanças de percepção.

Em determinado momento, Remy nega os empecilhos ao seu projeto inusitado de vida e afirma: “mas a Natureza é mudança”. Trata-se para ele de romper barreiras para a auto-realização e enfrentar o status quo por algo em que acredita. Remy espanta-se com a violência humana (e todos os seus apetrechos de morte, como ratoeiras e venenos), mas ainda assim teima com o pai, recusando que os homens sejam todos inimigos confessos dos ratos. Colocando-se perigosamente em um não-lugar – não é humano, contudo refuta a vida na colônia familiar e renuncia aos hábitos de sua espécie –, ele instala-se, pois, numa instabilidade assumida, como testemunham as tensas seqüências de perseguição (nas quais podemos perceber a respiração ofegante de desespero do bichinho).

Se os homens não entendem o grunhido dos ratos e apenas aqueles ratos que se abrirem podem aprender a língua dos homens, não haveria de fato por que acreditar na boa convivência generalizada entre os diferentes. Mas Remy tem como lema arriscar. E, como valores, seguir em frente, apostar na possibilidade de ser surpreendido pelo outro e confiar na capacidade de troca, de compreensão e de alargamento de fronteiras. No decorrer do filme, o desempenho do ratinho como protagonista dessa fábula sobre a liberdade de si e a tolerância mútua, ganha ares didáticos, aqui e ali. No entanto, o carisma com que Remy assume cada “discurso” não nos deixa enganar: o filme abraça sua causa frontalmente e sem pudores. E quem poderia reclamar de tal libelo à liberdade?

Há nas animações da Pixar, nos longas em especial, o charme irresistível de lidar concretamente com questões humanas a partir de abstrações suscitadas pelo exercício da fantasia. Ratatouille vem como a memória da infância evocada sensorialmente no crítico culinário Ego ao provar o prato preparado por Remy: arrebata de imediato, afetivamente, pela simplicidade e rechaça julgamentos sóbrios e distanciados, fazendo balançar qualquer resistência à adesão. Neste movimento, as intrigas possíveis (o desentendimento entre Remy e seu quase-marionete Linguini ou o necessário sigilo sobre o inaudito de um rato cozinheiro) não se aprofundam e o filme segue, doce e complacente com os dramas pessoais, que deverão encontrar sua superação, levando a bravas conquistas vida afora."


FILIPE FURTADO, da Revista Paisà:

"Não há forma mais industrial de cinema do que a animação, que envolve uma linha de produção muito mais ampla e por conseqüência uma dificuldade maior de controlar. Logo, com raras exceções (Myazaki, Avery) pouco pensamos em animação em termos de autor; por isso é surpreendente como Brad Bird, surgindo em meio a grande produção de animação americana (e dentro do seu principal celeiro, a Pixar), se afirmou como figura de ponta nesse cenário. Todos os três longas de Bird (além deste Ratatouille, ele é responsável por Os Incríveis e pelo ótimo, mas pouco visto, O Gigante de Ferro) são grandes espetáculos infantis, ao mesmo tempo populares e construídos com um certo cuidado e um toque particular que os separam do resto da produção, incluindo os demais filmes da Pixar. No que cabe à animação infantil para as massas, os únicos genuínos rivais de Bird hoje são Myazaki e Nick Park.

Ratatouille se difere de outros filmes de Brad Bird por não ter sido um projeto iniciado pelo cineasta, mas que ele herdou já com o seu desenvolvimento bastante adiantado, o que torna impressionante como o filme afirma o toque de Bird, inclusive tornando tudo uma bela alegoria afirmativa sobre o fazer cinematográfico, onde as crenças do cineasta são reafirmadas. Ratatouille também é único quando pensamos que se trata de um blockbuster que faz isso através de um viés nada típico. Primeiro, o filme é sobre a alta cozinha francesa, e não apenas isso, mas também um filme onde a única imagem mais assustadora para seu ratinho protagonista do que a de uma vitrine cheia de ratos mortos por ratoeiras, é o prospecto de passar o resto da vida criando linhas de fast food (o mesmo fast food onde afinal a Pixar e sua maior rival Dreamworks geralmente estabelecem parcerias a cada novo filme). É também um filme cujo prazer da criação é celebrado numa extensão rara, com especial destaque para a importância da figura criativa que conduz o processo. Ainda mais incomum: trata-se de uma superprodução sobre o processo criativo em que a moral final é dada por um crítico (cuja caracterização parece uma resposta a A Dama na Água, de M Night Shyamalan, um filme que lida com alguns dos mesmos temas de Ratatouille com resultados bem menos expressivos). A seqüência em que Anton Ego (num belo trabalho de voz de Peter O'Toole) escreve a crítica no final é um dos momentos mais bonitos do filme, ao mesmo tempo óbvio e inesperado e diz muito sobre o olhar de Bird que ele reescreva o ditado populista e bem Disney do guru culinário do ratinho (“qualquer um pode cozinhar”), para algo como nem todo mundo pode produzir grande arte, mas grande arte pode vir de qualquer lugar, que consegue ser ao mesmo tempo duro e profundamente generoso.

Poderíamos passar um texto inteiro afirmando as virtudes dos temas de Ratatouille, mas isto seria perder o que torna este filme especial. Porque a arte de Bird se afirma nos detalhes, na maneira como ele consegue incluir injeções de inesperado no seu filme. Ratatouille afinal é um filme sobre um ratinho que se recusa a simplesmente limpar os ratos e antropomorfizá-los por completo, há algo do nojo dos ratos que persiste no meio desta animação Disney: a imagem de um mar de ratos desfilando por uma cozinha ao mesmo tempo é deliciosamente divertida e algo incômoda. Ou a maneira que o filme investe na sua longa duração, ou ainda nas dificuldades de comunicação entre os personagens. O final, onde Bird opta por não apagar na fábula as implicações mais complexas da situação fantástica dos seus personagens, é só a última afirmação do toque de seu autor. "

AMERICAN SOCIETY OF CINEMATOGRAPHERS (II)

O diretor de fotografia Robert Elswit venceu o prêmio oferecido pela American Society of Cinematographers graças ao seu trabalho em Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson.

Robert Elswit concorreu ao Oscar em 2006 por seu trabalho em Boa Noite e Boa Sorte e em 2008 está novamente entre os finalistas na categoria Melhor Fotografia.

Sunday, January 27, 2008

SAG AWARDS (II)


MELHOR ELENCO: Onde os Fracos Não Têm Vez
Woody Harrelson, G. Dillahunt, Josh Brolin, Tess Harper, Javier Bardem e Tommy Lee Jones receberam as estatuetas do SAG na categoria Melhor Elenco pelo filme Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men)

MELHOR ATOR: Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)

Daniel Michael Blake Day-Lewis nasceu numa família ligada à arte. O pai, Cecil Day-Lewis, era poeta. O avô materno, Michael Balcon, um cineasta reconhecido. Não foi grande surpresa então que ele se tornasse ator e a irmã, documentarista. Seu filme de estréia foi Domingo Sangrento (1971), numa aparição sem créditos. Até 1982, quando atuou em Gandhi, fez trabalhos na TV britânica e no teatro.

O primeiro trabalho de destaque de Daniel Day-Lewis na telona foi The Bounty, em 1984, seguido de Minha Adorável Lavadeira e Uma Janela para o Amor, despertando interesse na mídia especializada norte-americana. Nos anos seguintes, atuou em longas como O Último dos Moicanos, A Época da Inocência, As Bruxas de Salem, O Lutador, Gangues de Nova Iorque e Sangue Negro. O astro também frequentemente participa de montagens para o teatro.

No discurso de agradecimento, Day-Lewis homenageou o australiano Heath Ledger, seu colega de profissão, falecido recentemente aos 28 anos.

MELHOR ATRIZ: Julie Christie (Longe Dela)

Criada na plantação de chá do pai na Índia, Julie Christie conheceu a Europa na adolescência, quando foi estudar na Inglaterra. Fascinada com o continente, sua liberdade e com a boemia, passou por Paris e ficou encantada com a idéia de se tornar uma atriz. A estréia na carreira ocorreu em 1961 numa produção para a TV. Sua carreira só tomou corpo, porém, quando ela trabalhou ao lado de John Schlesinger em Billy Liar (1963) e Darling - A que Amou Demais (1965).

O grande destaque de seu início de carreira veio com Doutor Jivago (1965). Entre seus trabalhos de destaque estão ainda Petúlia - Um Demônio de Mulher, O Mensageiro, O Céu Pode Esperar, Miss Mary, Coração de Dragão, Em Busca da Terra do Nunca, Longe Dela e muito mais. Al Pacino classificou a estrela como "a mais poética das atrizes".

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Javier Barden (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Javier Ángel Encinas Bardem (Las Palmas de Gran Canaria, 1 de Março de 1969) jogou rugby na seleção espanhola e estudou pintura, antes de se decidir pela carreira cinematográfica. Por sua atuação em Antes de anoitecer, em que viveu o papel do poeta cubano Reynaldo Arenas, discriminado e perseguido por ser homossexual, se tornou o primeiro espanhol indicado ao Oscar de melhor ator.

Em 2008 está na disputa pelo Oscar de coadjuvante, e com a vitória no SAG pode se dizer que ele é o favorito.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ruby Dee (O Gângster)

Nascida em Cleveland em 1924, Ruby Dee já entrou como surpresa entre as finalistas do Oscar, deixando Catherine Keener (Na Natureza Selvagem), finalista do SAG Awards, fora da disputa. Ao ganhar o prêmio do Sindicato, Ruby Dee embola ainda mais a disputa pela estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante, já que até então Cate Blanchett (I'm Not There) e Amy Ryan (Medo da Verdade) eram as favoritas, com alguma chance para Tilda Swinton (Conduta de Risco), enquanto Ruby Dee e Saoirse Ronan (Desejo e Reparação) eram zebras.

Ruby Dee interpreta Mama Lucas, a mãe do chefão do narcotráfico Frank Lucas (Denzel Washington) em O Gângter.